sábado, 11 de outubro de 2014

Para este eu tiro o boné

Dias destes, passando pelas ruas de Caldas Novas, em uma esquina próxima ao meu escritório, encontrei com o meu amigo e irmão José Henrique, que estava a conversar com uma pessoa, e este estava com um boné bem atolado em sua cabeça, parecendo esconder-se de alguma coisa.
Houve os cumprimentos e as apresentações.
Aquele senhor disse seu nome, e eu, talvez pego por uma pequena distração, não cheguei a anotá-lo,  que me pareceu meio esquisito, mas fiquei bem atento ao seu apelido, “Baiano” ou mesmo “Bahia”, como me fez ênfase tal epíteto.
Quando o José Henrique disse o meu nome, numa apresentação cheia de galanteios, o “homem de boné”, com toda a mesura, foi logo falando:
– Hã! O senhor é aquele juiz de uma sentença meia doida que absolveu um rapaz por meio de uma carta do Chico Xavier?
Fiquei meio ressabiado, porque não conhecendo aquele senhor, tive um certo receio de responder. Mas timidamente respondi:
– Sou eu mesmo, por quê?
Aí o “homem de boné” levantou-se e com uma mesura de encabular a qualquer um disse num repente:
– Para o senhor eu tiro o boné, pois que já ouvi falar muito a seu respeito, não só de onde vim, mas também de Uberaba, onde passei uma temporada, ouvindo falar a respeito de um juiz meio doido de Goiás que fez tal absolvição. Só mesmo um louco para acreditar em um simples papel de um senhor já velho, mas que eu sempre tive o prazer de ouvi-lo e seguir seus conceitos quando em Uberaba morava.
O homem continuou olhando para mim, que cheguei a tremer, acreditando que ele iria me agredir pelo seu tom de voz. 
Continuou:
– Sabe o senhor, quando digo que somente um louco poderia aceitar tal carta e absolver um assassino é porque na vida jurídica do nosso País tal documento é inaceitável e quase ninguém acredita nas psicografias. Assim, o senhor foi muito corajoso, pois que, na ocasião de sua decisão, não existia nada dentro do mundo jurídico que poderia servir de exemplo.
Quis retirar-me do local, pois já estava me sentindo meio constrangido com aquela conversa, pois vem de quase trinta anos sempre ouvindo tal  catilinária, e, em alguns casos, ouvindo críticas e mais críticas daquela decisão. Também ouvi vários elogios e fui levado a prestar testemunho em vários programas de televisão, inclusive na Rede Globo, onde exploraram por demais a minha pessoa e a minha decisão. E agora, aquele senhor chamado não sei como, com epíteto de Baiano ou Bahia, num rompante de homem “meio passado”, “tirando seu boné”, num gesto de elogio à minha pessoa, me colocou “de encontro à parede”, com tais assertivas.
Só sei dizer, prezado cara-pálida, após prolatado aquela sentença, o rumo de minha vida mudou em muito e eu sempre tenho de estar presente a todos os chamados a dar explicações no respeitante àquela decisão.
Aliás, o Chico Xavier já havia me dito que eu teria que ficar calmo, pois seria sempre chamado a prestar esclarecimentos até o fim de minha vida.
De fato, sempre conformei-me com tais situações, mas pego de surpresa deste jeito, o que tenho a dizer é que eu vou “pedir o meu boné” e sumir um pouco de circulação.
(Orimar de Bastos, juiz de Direito aposentado, advogado militante em Caldas Novas, membro da Academia Tocantinense de Letras, ocupante da Cadeira n° 33 e membro da Academia de Letras e Artes de Piracanjuba-GO e Cidadão Calda-novense)
Fonte: http://www.dm.com.br/texto/192676-para-este-eu-tiro-o-bone

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