sábado, 11 de outubro de 2014

A INFÂNCIA: fase essencial para a vida corporal do Espírito


“Apresentaram-lhe então algumas crianças, a fim de que ele as tocasse, e, como seus discípulos afastassem com palavras ásperas os que lhas apresentavam, Jesus, vendo isso, zangou-se e lhes disse: Deixai que venham a mim as criancinhas e não as impeçais, porquanto o reino dos céus é para os que se lhes assemelham.” (Marcos,10:13-16.)
A passagem de Marcos, uma das mais singelas do Evangelho, menciona o momento em que Jesus atrai, carinhosamente, para si, as crianças que o assistiam, em meio à multidão de seguidores. A mensagem singular, citada, também, por Mateus (19:13-15) e Lucas (18:15-17), é transmitida pelo Mestre, ao mostrar aos seus discípulos que a conquista do reino dos céus seria para aqueles que possuíssem a inocência e a candura do ser infantil. 
 
Jesus destaca a infância como importante período para o Espírito reencarnado e, ao dirigir-se às crianças, por meio de expressão de doçura incomparável, demonstra enorme cuidado em tratá-las amorosamente: abraça-as, abençoa-as e impõe-lhes as mãos, e repreende os seus apóstolos que as queriam afastar para que não atrapalhassem a transmissão de seus ensinamentos divinos. O que teria acontecido ao grupo infantil que conheceu o Cristo pessoalmente naquela inesquecível ocasião? Certamente, nunca mais olvidou o encantamento que sentiu com a aproximação do Mestre, a lhe transmitir lições maravilhosas, em meio às vibrações dulcíssimas emanadas de sua pregação. 
 
Um desses infantes, de acordo com a narrativa do autor espiritual Camilo Cândido Botelho, através da médium Yvonne A. Pereira, foi Aníbal de Silas, um dos anjos-tutelares do Hospital Maria de Nazaré (Instituição Espiritual destacada pelo referido autor, na obra Memórias de um Suicida). 
 
Aníbal, ainda menino, estava presente no ajuntamento de crianças acariciadas pelo Rabi da Galiléia, observando, enternecido, a inconfundível ternura de Jesus, ao pronunciar a exortação que haveria de sensibilizar e arrebatar os corações de todos os que o seguissem. A partir desse dia, Aníbal de Silas divulgou, intensamente, a Causa do Cristo, preferindo instruir as crianças e A infância: Era uma fase essencial para a vida corporal do Espírito pessoalmente naquela inesquecível ocasião? Certamente, nunca mais olvidou o encantamento que sentiu com a aproximação do Mestre, a lhe transmitir lições maravilhosas, em meio às vibrações dulcíssimas emanadas de sua pregação. 
 
É constante o zelo do Plano Maior em orientar-nos sobre a imprescindibilidade dessa fase, e, na análise feita por Allan Kardec, constata-se que esse período da vida corporal torna o ser [...] mais maleável e, por isso mesmo, mais acessível às impressões capazes de lhe modificarem a natureza e de fazê-lo progredir, o que torna mais fácil a tarefa que incumbe aos pais.² O Espírito Emmanuel, em estudos sobre a matéria, afirma: 
 
– O período infantil, em sua primeira fase, é o mais importante para todas as bases educativas, e os pais espiritistas cristãos não podem esquecer seus deveres de orientação aos filhos, nas grandes revelações da vida. Em nenhuma hipótese, essa primeira etapa das lutas terrestres deve ser encarada com indiferença.³ 
 
Desde o século XVIII, até a atualidade, filósofos, educadores psicólogos e estudiosos dos aspectos do comportamento infantil, entre eles, os mais clássicos, como:
Jean-Jacques Rosseau (1712-1778), Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), Friedrich Fröbel (1782-1852), Édouard Claparède (1873-1940), Maria Montessori (1870-1952), John Dewey (1859-1952), Henri Wallon (1879-1962) e Jean Piaget (1896-1980) à partir de seus diferentes enfoques teóricos, compartilham do princípio de que a criança deve ter um tempo próprio para o desabrochar de suas capacidades e aptidões, deixando-se guiar, física e emocionalmente, pelo aprendizado que lhe é oferecido, no meio familiar ou fora dele; essas vivências irão determinar, em sua existência atual, hábitos e maneiras de agir, característicos de sua personalidade. 
 
Infelizmente, a impaciência de certos pais, para que as crianças cresçam apressadamente, ignora o fato de que elas são organismos em crescimento; preocupam-se em sobrecarregar os filhos com tarefas e atividades desnecessárias, sem nenhum critério de seleção quanto aos benefícios efetivos que possam trazer para a formação do comportamento infantil. A resposta dada à questão 380, de O Livro dos Espíritos, é elucidativa sobre o problema: 
 
Desde que se trate de uma criança, é claro que, não estando ainda nela desenvolvidos, não podem os órgãos da inteligência dar toda a intuição própria de um adulto ao Espírito que a anima. Este, pois, tem, efetivamente, limitada a inteligência, enquanto a idade lhe não amadurece a razão. [...] 
 
A palavra amadurecimento está pejada de significações diferentes para aqueles que acompanham, atentos, o crescimento e o desenvolvimento da criança, no decorrer das idades e das fases que atravessa. Nem todos os pais compreendem que as crianças devem ser crianças antes de se tornarem pessoas adultas; tentam inverter essa ordem sem admitir que a infância tem seu próprio modo de pensar, ver e sentir. Em razão disso, meninos e meninas, estimulados por genitores demasiadamente liberais, negligentes, omissos, ou influenciados pelos modismos da sociedade hodierna, vivem experiências sociais, culturais e educacionais inadequadas à sua idade, como, por exemplo: a) comparecimento em festas e reuniões, impróprias à infância, onde são estimulados os namoricos e as trocas de afetos precoces; b) cuidados excessivos com a beleza física (maquiagem, cabeleireiro, participação em concursos de beleza etc.); c) usança de bens de consumo dispensáveis (roupas e acessórios caros e de grife, joias, equipamentos eletrônicos de alta tecnologia, brinquedos sofisticados, celulares etc.); d) convivência em grupos virtuais, sem o necessário acompanhamento de pais e educadores, e uso indevido da Internet, permitindo-lhes acessar páginas e sites de relacionamento e propaganda desaconselháveis para essa faixa etária; e) leituras de livros, revistas, jornais, de literatura violenta e perniciosa; publicações adotadas com o pressuposto de que tais instrumentos auxiliam a criança a extravasar suas tensões; f) manejo de jogos eletrônicos com cenas de crimes, guerras e violências; g) acesso indiscriminado à TV, DVD, sem seleção de filmes e programas mais apropriados para infância, em detrimento das condições favoráveis da convivência no lar e em sociedade; h) relacionamento entre grupos de crianças que promovem brincadeiras e práticas de jogos prejudiciais à formação ético-moral do ser; i) participação em atividades artísticas (dança, canto, dramatização) nem sempre adequadas à idade infantil, e que estimulam os apelos sensuais; j) envolvimento desmesurado em atividades intelectuais, em prejuízo de sua educação moral. 
 
Resta saber que frutos darão mais tarde essas sementes. 
 
Allan Kardec, na Revista Espírita, de fevereiro de 1864, como a prever descalabros desse tipo na educação familiar, alerta os pais para o fato de que os filhos precisam ser dotados [...] de uma natureza excepcionalmente boa para resistir a tais influências, produzidas na idade mais impressionável e onde não podem encontrar o contrapeso da vontade, nem da experiência [...]6 
 
O nobre Espírito Joanna de Ângelis, referindo-se a problemas dessa natureza, adverte que esses mecanismos lhes facultam [...] a permissividade que o educando não tem condições de absorver, naufragando, desde cedo, nos abusos de toda ordem, com prejuízo da futura realização moral, social, profissional
e doméstica, ao se tornar genitor. 
 
O Espiritismo destaca a missão e a responsabilidade dos pais, permitindo-lhes conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más, dos Espíritos que reencarnam, e orientando-os para a maneira mais racional e fraterna, e, de forma gradual, de como deve ser educada a prole, nas famílias verdadeiramente espíritas. 
 
O convite de Jesus, para que todas as crianças permaneçam ao seu lado é para lembrar-nos de que há na vida valores humanos e cristãos que devem ser, pouco a pouco, descobertos e vivenciados por elas, sem perder de vista que precisamos propiciar-lhes um sadio desenvolvimento, deixando-as viver esse momento mágico da infância, sem prescindir de uma criação baseada no amor verdadeiro que enseje respeito, união e solidariedade entre todos. 
 
Referências:
1PEREIRA, Yvonne A. Memórias de um suicida. Pelo Espírito Camilo Cândido Botelho. 7. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.
P. 3, A Cidade Universitária, item Mansão da Esperança, p. 518-519.
2KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro.
25. ed. de bolso. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap. 8, item 4, p. 159.
3XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 24. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Q. 113.
4ELKIND, David. Desenvolvimento e educação da criança. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978. Cap. 2, p. 36-50.
5KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 91. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Q. 380.
6______. Primeiras Lições de Moral da Infância. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos, ano 7, p. 61, fev. 1864. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006.
7FRANCO, Divaldo P. Constelação familiar. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador (BA): LEAL, 2008. Cap. 29, p. 181-185.
Março 2009 • Reformador 
 
Fonte: blog "Estudo: Espiritismo, Kardec"

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