sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Quem mandou Chico se meter com o diabo?



Conta Marcel Souto Maior, bom jornalista primeiro e, a partir de 1994, escritor consagrado com seu best-seller As Vidas de Chico Xavier, Editora Rocco Ltda, em meados dos anos 50, quanto mais gente saía de outros estados à procura de Francisco Cândido Xavier, em Pedro Leopoldo, Minas Gerais, mais o sangue do padre Sinfrônio subia à cabeça. Os carros passavam direto pela igreja de Nossa Senhora da Conceição e estacionavam diante do Centro Espírita Luiz Gonzaga, a 50 metros de distância. Ele ficou tão irritado com o espiritismo, com o doutor Bezerra de Menezes, com as curas e textos do Além, que instalou na torre da igreja, em frente ao sino, um potente alto-falante.
Entre uma badalada e outra, o sacerdote convocava a população para a missa, rezava a ave-maria, criticava a idéia de reencarnação. Só evitava pronunciar o nome de Chico Xavier, numa medida estratégica: não queria transformar o famoso médium em vítima.
Com sutileza e inteligência, o pároco conseguiu convencer muitas beatas do quanto o espiritismo era arriscado. Chico Xavier era um exemplo de boa pessoa, educada e honesta. Mas como sofria o coitado! Era perseguido pela imprensa, processado na Justiça, assediado por fantasmas e por forasteiros. Quem mandou se meter com o diabo?
Chico nunca tentou argumentar com o padre. Ignorava qualquer provocação, fugia de confrontos. Quando cruzava com o “rival” no meio da rua, tirava o chapéu e o cumprimentava, respeitoso. Muita gente ficava irritada com sua passividade. Ele se defendia das acusações de ser omisso, comparando o ato de polemizar ao de remexer uma tina de água, “um serviço vão, que cansa os braços inutilmente”.
Nunca atacaria o catolicismo nem qualquer outra religião. Pelo contrário, fazia questão de defender a Igreja Católica como fundamental ao País:
– Por mais de 400 anos, nós fomos e somos tutelados por ela na formação de nosso caráter cristão.
Para o autor do livro, Chico estava longe de ser ingênuo. O catolicismo era útil para o espiritismo. Multidões de católicos desembarcavam no Luiz Gonzaga todas as semanas. A Igreja Católica precisava sobreviver pelo menos mais 100 anos. Os espíritas não tinham tempo nem recursos para receber todos os fiéis. Seus centros seriam como choças e, perto destas, os católicos vinham dos palácios...
O certo é que essa tática pacifista e sua postura ecumênica funcionaram com o sacerdote. Quase 40 anos depois, o padre Sinfrônio participaria da festa de inauguração de uma praça batizada com o nome de Francisco Cândido Xavier, em Pedro Leopoldo.
Brigar por motivos religiosos é muito antigo, feio e anti-cristão. Quem estuda os quatro Evangelhos sabe que, em nenhum lugar deles, encontramos Jesus prometendo o reino dos céus a uma determinada religião. As religiões são interpretações humanas da doutrina divina que ele veio ensinar à humanidade e, portanto, são diferentes caminhos para Deus. O Cristo promete a vida eterna aos bons, a estes sim, àqueles que se amam uns aos outros..
Chico e a menina que 
não queria ser médium
Certa vez, ao término de uma reunião no Grupo Espírita da Prece, em Uberaba, Francisco Cândido Xavier foi procurado por um senhor e sua filha adolescente, ambos de aparência muito simples. O pai lhe disse:
– Senhor Chico, peço que ajude minha filha a ser médium. Moramos na roça e, há muito tempo, somos admiradores do senhor. Esta menina é estranha, vive pelos cantos e não conversa com ninguém. Não sabemos mais o que fazer com ela...
A resposta do médium não foi aquela que o aflito visitante esperava:
– Meu irmão, em primeiro lugar precisamos saber se a sua filha quer ser médium. Talvez ela prefira continuar com os santos de sua devoção. Não podemos conduzir alguém à mediunidade, como antigamente muitos pais faziam com os filhos, obrigando-os a ser padres ou freiras...
Dirigindo-se à menina, que trajava um vestido de chita que lhe chegava quase aos calcanhares, conversou com ela:
– Minha filha, aonde você prefere fazer as suas orações?
– Na igreja.
– Qual o santo de sua devoção?
– Santa Teresinha.
– Você se sente bem orando na igreja?
– Mais do que no centro espírita aonde meu pai me leva.
Chico, então, voltou-se para o homem:
– Não podemos obrigar um jovem ou uma jovem a seguir o caminho da mediunidade. Pode ser que sua filha escolha o convento ou que, mais tarde, encontre um namorado que não se interesse pelo espiritismo. A mediunidade exige um certo amadurecimento, porque nem todos estão preparados para essa difícil missão e, então, começam e largam. Cada espírito tem o seu próprio destino. Mais importante que ser médium é ser bom. Muitos espíritos que os pais obrigam à formação sacerdotal acabam por se comprometer seriamente e eles, os pais, também serão responsabilizados por isso...
Quem presenciou este fato e o registrou no seu livro Chico Xavier, o apóstolo da fé, Edições Espíritas Pedro e Paulo, 2002, foi Carlos A. Baccelli, um dos principais biógrafos do maior médium do nosso tempo.
Recomenda O Evangelho Segundo o Espiritismo: “Não violenteis nenhuma consciência, não forceis ninguém a deixar sua crença para adotar a vossa”.
DIÁRIO DA MANHÃ - JÁVIER GODINHO
FONTE: HTTP://WWW.DM.COM.BR/TEXTO/187163

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