quarta-feira, 9 de abril de 2014

UM HOMEM MAU, QUE QUERIA SER BOM - Reflexão de Texto dos Evangelhos


       "Lembra-te de mim, Jesus, quando entrares no teu reino"...
        "Em verdade te digo, ainda hoje estarás comigo no paraíso"...
         Diálogo mais estranho nunca se travou no mundo do que êste, de cruz a cruz, entre dois moribundos.
        "Lembra-te de mim" - quem pede apenas uma gotinha de amor no meio dum inferno de dores não é homem mau.
        O homem intimamente mau maldiz os seus sofrimentos e os autores dos mesmos.
        O homem mesquinho pede libertação dos tormentos ou aceleração da morte.
        O ladrão da cruz pede apenas uma lembrança, um pouco de amor...
        Pede uma migalha daquilo cujo falta o tornara celerado, perverso e cruel;;;
        Desde pequeno, queria êle ser bom - mas os homens o fizeram mau, porque lhe negaram compreensão e amor...
        Deu um passo em falso - e as leis desumanas dos homens o condenaram como malfeitor...
        A companhia perversa da prisão induziu a ser mau a quem queria ser bom...
        E, quando terminou a sua pena, andou pelo mundo com o estígma de criminoso - e nunca mais encontrou entre os "homens honestos" quem lhe desse uma migalha de amor...
        Arrastou-se pela existência noturna  com a alma gelada duma frialdade polar...
        Só na hora suprema da vida, no alto do patíbulo, encontrou, finalmente, um homem humano - seu companheiro de suplício...
        Encontrou um homem que acreditava mais nas saudades de sua alma do que nas maldades de sua vida...
        Encontrou um homem que o amava e queria bem....
        E o "bom ladrão" sentiu uma tépida aura de benevolência a envolver-lhe a alma gelada...
       E, entre o degelo primaveril desse olhar de amor, pediu ao colega de tortura que dele se lembrasse, à luz do seu reino...
        Não pediu vingança para os seus inimigos, não pediu alívio na atróz agonia  - pediu aquilo cuja falta fizera de sua vida um inferno: uma migalha de amor...
        Uma lembrança apenas...
        Um pensamento carinhoso...
        Uma gotinha de amizade...
        "Lembra-te de mim, quando entrares no teu reino"... 
        E conseguiu na morte, de um moribundo, o que em vida jamais conseguira dos vivos...
        E, pelo pouco que pediu, recebeu o muito que não ousara dizer: "Ainda hoje estarás comigo no paraíso"...
        Sobre as cabeças da multidão ululante, trava-se então, de cruz a cruz, entre dois moribundos, uma amizade sincera, sagrada, eterna...
        Amizade entre um homem divinamente bom e um homem mau que queria ser bom, e que se fêz bom pelo amor...
        Entre o Cristo Redentor - e um homem redimido.
(De Alma para Alma).

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