quinta-feira, 24 de abril de 2014

BICORPOREIDADE E TRANSFIGURAÇÃO - O Livro dos Médiuns, Cap. 7, Allan Kardec

- Esses dois fenômenos são variedades de manifestações visuais. Por mais maravilhosos que possam parecer à primeira vista, facilmente se reconhecerá, pelas explicações que deles se podem dar, que não saem da ordem dos fenômenos naturais. Ambos se fundam no princípio de que tudo o que foi dito sobre as propriedades do perispírito após a morte se aplica ao perispírito  dos vivos.
O perispírito, ou corpo fluídico dos Espíritos, é um dos mais importantes produtos do fluido_cósmico; é uma condensação desse fluido e tem seu princípio de origem nesse mesmo fluido condensado e transformado em matéria tangível. 
No perispírito, a transformação molecular se opera diferentemente, porquanto o fluido conserva a sua imponderabilidade e suas qualidades etéreas. 

O corpo perispirítico e o corpo carnal têm pois origem no mesmo elemento primitivo; ambos são matéria, ainda que em dois estados diferentes.
A Gênese - Allan Kardec - [38 cap. XIV pág.277 it. 7]
Sabemos que o Espírito, durante o sono, recobra em parte a sua liberdade, ou seja, que ele se afasta do corpo . E é nesse estado que muitas vezes temos a ocasião de observá-lo. Mas o Espírito, tanto do vivo quanto do morto, tem sempre o seu envoltório semi-material, que pelas mesmas causas já referidas pode adquirir a visibilidade e a tangibilidade. Há casos bastante positivos que não podem deixar nenhuma dúvida a esse respeito. Citaremos somente alguns exemplos de nosso conhecimento pessoal, cuja exatidão podemos garantir, pois todos estão em condições de acrescentar outros, recorrendo  às suas lembranças.

Durante o sono, a alma não repousa como o corpo. O Espírito jamais fica inativo. Durante o sono, os liames que o unem ao corpo se afrouxam e o corpo não necessita do Espírito. Então ele percorre o espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos.
O Livro dos Espíritos, Livro II, questão 401.
 A mulher de um nosso amigo viu repetidas vezes, durante a noite, entrar no seu quarto, com luz acessa ou no escuro, uma vendedora de frutas da vizinhança que ela conhecia de vista, mas com a qual nunca havia falado. Essa aparição a deixou muito apavorada, tanto mais que a senhora, na época, nada conhecia de Espiritismo e o fenômeno se repetia com freqüência. A vendedora estava perfeitamente viva e de certo dormia naquela hora. Enquanto o seu corpo material estava em casa, seu Espírito e seu corpo fluídico estavam na casa da senhora. Qual o motivo? Não se sabe. Nesse caso, um espírita já experimentado lhe teria feito a pergunta, mas a senhora nem sequer teve essa ideia.
A aparição sempre se desfazia sem que ela soubesse como, e sempre, após o seu desaparecimento, ela ia ver se todas as portas estavam bem fechadas, assegurando-se de que ninguém poderia ter entrado no seu quarto.
Essa precaução mostra que ela estava bem acordada e não era iludida por um sonho. De outra vez ela viu, da mesma maneira, um homem desconhecido, mas um dia viu seu irmão, que então se encontrava na Califórnia. A aparência era tão real que, no primeiro momento, pensou que ele havia regressado e quis falar-lhe, mas ele desapareceu sem lhe dar tempo. Uma carta recebida depois lhe provou que ele não havia morrido. Esta senhora era o que se pode chamar um médium vidente natural. Mas nessa época, como já dissemos, ela nunca ouvira falar de médiuns.
Antes de prosseguir, devemos responder a uma pergunta que inevitavelmente será feita: como o corpo pode viver enquanto o Espírito se ausenta? Poderíamos dizer que o corpo se mantém pela vida orgânica, que independe da presença do Espírito, como se prova pelas plantas, que vivem e não têm Espírito.Mas devemos acrescentar que, durante a vida, o Espírito jamais se retira completamente do corpo.
Os Espíritos, como alguns médiuns videntes, reconhecem o Espírito de uma pessoa viva por um traço luminoso que termina no seu corpo, fenômeno que jamais se verifica se o corpo estiver morto, pois então a separação é completa. É por meio dessa ligação que o Espírito é avisado, a qualquer distância que estiver, da necessidade de voltar ao corpo, o que faz com a rapidez do relâmpago. Disso resulta que o corpo nunca pode morrer durante a ausência do Espírito e que nunca pode acontecer que o Espírito, ao voltar, encontre a porta fechada, como tem dito alguns romancistas em estórias para recrear. (O Livro dos Espíritos, nº 400 e seguintes).
Voltemos ao nosso assunto. O espírito de uma pessoa viva, afastado do corpo, pode aparecer como o de um morto, com todas as aparências da realidade. Além disso, pelos motivos que já explicamos, pode adquirir tangibilidade momentânea. Foi esse fenômeno, designado por bicorporeidade, que deu lugar às estórias de homens duplos, indivíduos cuja presença simultânea se constatou em dois lugares diversos. Eis dois exemplos tirados, não das lendas populares, mas da História Eclesiástica.

Santo Afonso de Liguori foi canonizado antes do tempo exigido por se haver mostrado em dois lugares diferentes, o que passou a ser milagre.
Santo Antônio de Pádua estava na Espanha e no tempo em que ali pregava, seu pai, que se encontrava em Pádua, ia sendo levado ao suplício, acusado de assassinato. Nesse momento Santo Antônio aparece, demonstra a inocência do pai e dá a conhecer o verdadeiro criminoso que, mais tarde, sofreu o castigo. Constatou-se que naquele momento Santo Antônio não havia deixado a Espanha.
Santo Afonso, evocado e interrogado por nós sobre o fato referido, deu as seguintes respostas:
2. Isso não nos dá a explicação da visibilidade e da tangibilidade do perispírito?
— Estando desligado da matéria, segundo o seu grau de elevação o Espírito pode se tornar tangível à matéria.
3. É indispensável o sono do corpo para o aparecimento do Espírito em outros lugares?
— A alma pode se dividir quando se deixa levar para longe o corpo. Pode ser que o corpo não durma,embora seja isso muito raro, mas então estará em perfeita normalidade. Estará sempre mais ou menos em êxtase. 
Nota de Kardec: A alma não se divide, no sentido literal da palavra. Ela irradia em várias direções e pode assim manifestar-se em muitos lugares, sem se fragmentar. É o mesmo que se dá com a luz ao refletir-se em muitos espelhos.
4. Estando um homem mergulhado no sono, enquanto seu Espírito aparece ao longe, que aconteceria se fosse subitamente despertado?
— Isso não aconteceria, porque se alguém tivesse a intenção de acordá-lo o Espírito voltaria ao corpo, antecipando a intenção, pois o Espírito lê o pensamento.
Explicação inteiramente idêntica nos foi dada muitas vezes por Espíritos de pessoas mortas ou vivas. Santo Afonso explica o fato da presença dupla, mas não oferece a teoria da visibilidade e da tangibilidade.

A pessoa que se mostra simultaneamente em dois lugares diversos tem portanto dois corpos. Mas desses corpos só um é real, o outro não passa de aparência. Pode-se dizer que o primeiro tem a vida orgânica e o segundo a anímica. Ao acordar os dois corpos se reúnem e a vida anímica penetra o corpo material. Não parece possível, pelo menos não temos exemplos, e a razão parece demonstrar que, quando separados, os dois corpos possam gozar simultaneamente e no mesmo grau da vida ativa e inteligente.
Ressalta, ainda, do que acabamos de dizer, que o corpo real não poderia morrer enquanto o corpo aparente permanece visível: a aproximação da morte chama sempre o Espírito para o corpo, mesmo que só por um instante. Disso resulta também que o corpo aparente não poderia ser assassinado, pois não é orgânico e nem formado de carne e osso: desaparece no momento em que se quiser matá-lo.

- Passemos a tratar do segundo fenômeno, o de transfiguração , que consiste na modificação do aspecto de um corpo vivo. Eis, a respeito, um caso cuja perfeita autenticidade podemos garantir, ocorrido entre os anos de 1858 e 1859, nas cercanias de Saint-Étienne:

Uma jovem de uns quinze anos gozava da estranha faculdade de se transfigurar, ou seja, de tomar em dados momentos todas as aparências de algumas pessoas mortas. A ilusão era tão completa que se acreditava estar na presença da pessoa, tamanha a semelhança dos traços do rosto, do olhar, da tonalidade da voz e até mesmo das expressões usuais na linguagem. Esse fenômeno repetiu-se centenas de vezes, sem qualquer interferência da vontade da jovem. Muitas vezes tomou a aparência de seu irmão falecido alguns anos antes, reproduzindo-lhe não somente o semblante, mas também o porte e a corpulência.

Um médico local, que muitas vezes presenciara esses estranhos fenômenos, querendo assegurar-se de que não era vítima de ilusão, fez interessante experiência. Colhemos as informações dele mesmo, do pai da moça e de muitas outras testemunhas oculares, bastante honradas e dignas de fé. Teve ele a ideia de pesar a jovem no seu estado normal e durante a transfiguração, quando ela tomava a aparência do irmão que morrera aos vinte anos e era muito maior e mais forte do que ela. Pois bem: verificou que na transfiguração o peso da moça era o dobro.

A experiência foi conclusiva, sendo impossível atribuir a aparência a uma simples ilusão de ótica. Tentemos explicar esse fato, que sempre foi chamado de milagre, mas que chamamos simplesmente de fenômeno.

- A transfiguração pode ocorrer, em certos casos, por uma simples contração muscular que dá a fisionomia expressão muito diferente, a ponto de tornar a pessoa quase irreconhecível. Observamo-la freqüentemente com alguns sonâmbulos. Mas, nesses casos, a transformação não é radical. Uma mulher poderá parecer jovem ou velha, bela ou feia, mas será sempre mulher e seu peso não aumentará nem diminuirá. No caso de que tratamos é evidente que algo mais. A teoria  do perispírito vai nos por no caminho.

 Admite-se em princípio que o Espírito pode dar ao seu perispírito todas as aparências. Que, por uma modificação das disposições moleculares, pode lhe dar a visibilidade, a tangibilidade e em conseqüência a opacidade. Que o perispírito de uma pessoa viva, fora do corpo pode passar pelas mesmas transformações e que essa mudança de estado se realiza por meio da combinação dos fluídos.

 Imaginemos então o perispírito de uma pessoa viva, não fora do corpo, mas irradiando ao redor do corpo de maneira a envolvê-lo como uma espécie de vapor. Nesse estado ele pode sofrer as mesmas modificações de quando separado. Se perder a transparência, o corpo pode desaparecer, tornar-se invisível, velar-se como se estivesse mergulhado num nevoeiro. Poderá mesmo mudar de aspecto, ficar brilhante, de acordo com a vontade ou o poder do Espírito. Outro Espírito, combinando o seu fluido com esse, pode substituir a aparência dessa pessoa, de maneira que o corpo real desapareça, coberto por um envoltório físico exterior cuja aparência poderá variar como o Espírito quiser.

 Essa parece ser a verdadeira causa do fenômeno estranho — e raro, convém dizer, — da transfiguração. Quanto à diferença de peso, explica-se da mesma maneira que a dos corpos inertes. O peso próprio do corpo não varia. porque a sua quantidade de matéria não aumenta, mas o corpo sofre a influência de um agente exterior que pode aumentar-lhe ou diminuir-lhe o peso relativo. É provável, portanto, que a transfiguração na forma de uma criança diminua o peso de maneira proporcional.

 A GÊNESE (ALLAN KARDEC)
Capítulo XIV
35. Aparições; transfigurações. O perispírito é invisível para nós em seu estado normal; porém, como é formado de matéria etérea, o Espírito pode, em certos casos, lhe fazer receber, por um ato de sua vontade, uma modificação molecular que o torna momentaneamente visível. É assim que se produzem as aparições, as quais, como também outros fenômenos, não estão fora das leis da natureza.

Este fenômeno não é mais extraordinário que o do vapor, o qual é invisível quando é muito rarefeito e torna-se visível quando é condensado. Segundo o grau de condensação do fluido perispiritual, a aparição é algumas vezes vaga e vaporosa; outras vezes é mais nitidamente definida; e outras, enfim, tem todas as aparências da matéria tangível; pode mesmo chegar à tangibilidade real, ao ponto em que se pode duvidar da natureza do ser que temos diante de nós.

As aparições vaporosas são freqüentes, e sucede muitas vezes que indivíduos assim se apresentam às pessoas a quem têm afeição. As aparições tangíveis são muito raras, embora haja delas numerosos exemplos, perfeitamente autênticos. Se o Espírito deseja fazer-se conhecido, dará a seu envoltório todos os sinais exteriores que tinha enquanto vivia.
CAPÍTULO XV, TRANSFIGURAÇÃO – 43. Seis dias depois, tendo Jesus tomado a Pedro, Tiago e João consigo, os levou a sós com ele sobre uma alta montanha a um lugar afastado, e ali transfigurou-se diante deles. E enquanto fazia a sua oração, seu rosto parecia ser inteiramente outro; suas vestes tornaram-se brilhantes de luz, e brancas como a neve, de modo tal que não há sobre a terra, alvejante que os possa assim tornar brancos. – E viram aparecer Elias e Moisés, que conversavam com Jesus.

Então, disse Pedro a Jesus: Mestre, estamos bem aqui; façamos três tendas: uma para vós, uma para Moisés, e uma para Elias:-pois nem sabia o que dizia, de tão maravilhado que estava. Ao mesmo tempo, apareceu uma nuvem que os cobriu; e dessa nuvem saiu uma voz que assim dizia: Este é o meu filho bem amado; escutai-o . Logo, olhando de todos os lados, não viram mais ninguém senão a Jesus, que permanecera com eles.

Quando desciam da montanha, ele lhes ordenou que a ninguém falassem do que haviam visto, até que o Filho do homem ressuscitasse de entre os mortos. –E conservaram secretas essas coisas, perguntando uns aos outros o que queria ele dizer com aquelas palavras: Até que o Filho do Homem ressuscitasse de entre os mortos (S. Marcos, cap. IX, vers. De 1 a 9).

44-De todas as faculdades que se revelaram em Jesus, não há nenhuma que esteja fora das condições da humanidade, e que não seja encontrada no comum dos homens, pois elas estão na natureza; mas pela superioridade de sua essência moral e de suas qualidades fluídicas, elas atingiam nele proporções acima das do vulgo. Ela nos representaria, à parte do seu envoltório carnal, o estado dos Espíritos puros.
 – OBRAS PÓSTUMAS (ALLAN KARDEC)
Transfiguração, invisibilidade, pág. 57 - 1998
22. O perispírito do homem tem as mesmas propriedades que o do Espírito. Como já dissemos, não fica encerrado no corpo, irradia-se e forma em torno dele uma atmosfera fluídica. Ora pode acontecer em outros casos e em circunstâncias especiais que ele sofresse uma transformação análoga à que foi descrita.

Nesse caso, a forma material do corpo pode apagar-se sob aquela camada fluídica, se assim nos é permitido dizer, a revestir momentaneamente uma aparência mui diferente da real, a de uma outra pessoa, ou a do Espírito, que combina os seus fluidos com o indivíduo, ou mesmo dar a uma fisionomia feia um belo e radiante aspecto.

A transfiguração pode processar-se em condições diversas, segundo o grau de pureza do perispírito sempre correspondente ao da elevação moral do Espírito. Ela pode não passar de uma ligeira modificação da fisionomia, ou chegar ao ponto de dar ao perispírito uma aparência luminosa e esplendorosa.

A forma material pode, por conseguinte, desaparecer sob o fluido perispiritual, sem que precise mudar de aspecto, podendo simplesmente envolver o corpo, inerte ou vivo, e torná-lo invisível a um ou a muitos, como se fosse uma camada de vapor. Não nos servimos destas comparações como se houvesse entre os dois termos uma analogia absoluta, antes nos apressamos em declarar que ela existe.

O Consolador ( Estudando as obras de Kardec - Ano 1- nº7)
51. Que é bicorporeidade? 
O Espírito de uma pessoa viva, isolado do corpo, pode aparecer noutro lugar, como o de uma pessoa morta, e ter todas as aparências da realidade; além disso, ele pode adquirir uma tangibilidade momentânea. Eis o fenômeno chamado bicorporeidade, que deu lugar às histórias de homens duplos, isto é, de indivíduos cuja presença simultânea foi verificada em dois lugares diferentes. É o que se deu com Santo Afonso de Liguori e Santo Antônio de Pádua, como nos relata a história eclesiástica. O fenômeno da bicorporeidade é uma variedade das manifestações visuais e repousa nas propriedades do perispírito, que, em dadas circunstâncias, pode tornar-se visível e mesmo tangível. (Itens 114 e 119)

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