segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Nelson Xavier: a vida é (sempre) bela

Um passeio pelas memórias do ator Nelson Xavier, artista que, a partir de um diagnóstico de câncer e de um encontro com o médium Chico Xavier, mudou a forma de entender (e viver) a vida.

Nelson Xavier, de 72 anos, sofreu uma mudança de vida ao entrar em contato com a figura do médium brasileiro Chico Xavier – a quem interpretou no cinema. Nas próprias palavras, é hoje menos arrogante; mais sereno. Da última vez em que esteve em Fortaleza, quando transcorreu a conversa a seguir, veio apresentar o monólogo-depoimento A Vida é Sempre Bela, que se tornou para ele uma forma de agradecer o que chamou de “presente”.

Se essas modificações se seguiram de um lado, um sentido de permanência atuou de outro. Assim, ele continua paradoxalmente igual. Cultiva algumas ideias que tinha na juventude. Acha que o homem só será feliz com o fim da propriedade privada; lembra com entusiasmo iniciativas de educação popular. Não é religioso.

Como ator, Nelson percorreu caminhos no teatro, cinema e televisão. Curiosamente, nunca quis atuar. A vontade inicial era escrever e dirigir filmes. Mas a vida é um fluxo traiçoeiro. Entrou no Teatro de Arena nos anos 1960, grupo que mudou o teatro brasileiro. Atuou em textos de Augusto Boal e Plínio Marcos. Fez personagens memoráveis como Lampião em minissérie nos anos 1980. E também Chico Xavier no cinema.

Nesta entrevista, concedida na sede do Movimento em Favor da Vida (Movida), na Capital, ele relembra as brigas por comida no Teatro de Arena, o medo que teve ao iniciar na TV e o câncer de próstata que o fez olhar para o abismo, em 2003.
 
O POVO - Como surge a ideia de fazer um espetáculo contando sua própria história?
Nelson Xavier - Foi meu encontro com Chico que me fez sentir uma coisa tão radical. Eu achei que precisava fazer alguma coisa em troca. Quando eu o encontrei, a ideia que mais me dominou foi: “O que eu fiz para merecer esse prêmio? Eu não fiz nada”. (emociona-se). Eu não sabia o que fazer com isso. Um amigo meu, com quem trabalho há pelo menos 12 anos, um escritor - porque, em origem, eu sou escritor; me tornei artista porque queria fazer cinema, dirigir - me deu um texto. “Faz disso teatro”. Isso aconteceu em 2011. Pensei: “Como eu vou ensaiar isso?”. O texto fala de mim, da minha trajetória até o encontro com Chico. O Ivan (Jaf) garimpou durante seis meses material sobre Chico. E me deu.

OP - O que, da sua trajetória, já apontava para o encontro com Chico Xavier?
Nelson - Nada. Minha formação é de esquerda, partido comunista, militante, queria fazer a revolução, transformar a sociedade numa sociedade socialista.

OP - Depois desse encontro, o que muda na prática na sua relação com as pessoas, com a vida?
Nelson - O caminho foi contar. Essa peça é uma retribuição pelo prêmio. Um pagamento, uma resposta. Era um texto que não era meu. Pela primeira vez, encontrei um texto falando de mim sem que eu tivesse feito. Como é que ia decorar um texto que não fala de mim? A intuição me levou a fazer o seguinte: vou fazer isso diante de um público crente. Então, comecei a fazer em centros espíritas. Inicialmente, eu lia. Depois fui me desligando do texto. 

OP - Depois do contato com Chico, você passou a frequentar centros espíritas?
Nelson - Não. Não é com frequência. Eu vou lá e faço (o monólogo). Mas esse trabalho independe de religião.

OP - Você chegou a ter contato com Chico pessoalmente?
Nelson - Nunca. Enquanto ele era vivo, nunca tive interesse. Minha mãe (que era espírita) tinha me mostrado esse mundo e eu nunca me interessei. Até criticava. Até hoje acho um pouco… Os evangélicos estão enchendo o Congresso. Acho que os espíritas deveriam fazer o mesmo. E não fazem. Eles deveriam ser ativos. Mas não é a orientação deles. 

OP - Sobre seu trabalho como ator, o crítico Yan Michalski, em 1989, definiu seu perfil artístico: “Ator eminentemente cerebral”. Você se considera um ator cerebral? Como se define?
Nelson - Não me considero. Mas houve uma voga, sim. Eles decretavam que eu não tinha vocação, que era uma pessoa que construía o que fazia. Me considero uma pessoa muito emotiva. Embora também me considere muito cuidadoso e detalhista; rigorosamente e paranoicamente detalhista. Isso deve ressaltar para uma visão como essa. Ele não era o único a achar que meus personagens tinham essa coisa muito elaborada, até às vezes exagerando. Eu às vezes choro quando não quero. A emoção me inibe às vezes. Tivemos no Nepal para fazer as primeiras cenas de Joia Rara (novela da TV Globo). Lá aconteceu o último exemplo disso. Queria fazer uma cena preocupado com meu discípulo para que ele se cuidasse. E chorei. Não previa nem pretendia.

OP - Como foi a reação na sua família quando você decidiu partir para a carreira artística? Sua família te apoiou?
Nelson - Não. “Ih, meu filho, você vai fazer isso?” Minha mãe era casada com um advogado da Light e achava que isso não levava a nada. Nunca me proibiu. Eu também trabalho desde cedo. E já ganhava meu dinheirinho, embora morasse na casa dela. Comecei como office-boy da Chamex. Eu era um filho que não causava problemas. Meu padrasto nunca me impôs, mas me aconselhou a fazer Direito. E eu queria estudar era Filosofia. Acabei fazendo exame para a Escola de Arte Dramática, para Filosofia e para Direito. Só passei em Direito. E só tive coragem de fazer exame para a Escola, porque, aos 19 anos - essas coisas que aparecem na vida da gente e que são sinais… Um convite para fazer o curso na Universidade de Siena (Itália). Eu já estava na Faculdade de Direito. Não sei de onde surgiu. A gente bolou - eu e meus dois colegas - um livro de ouro, junto com a colônia italiana em São Paulo, para esses três estudantes fazerem o curso. A gente arrecadou um pouquinho, mas não deu. Minha mãe e meu padrasto completaram a passagem. Fomos de navio para a Europa. Passei a maior parte do tempo vendo museus. Tentei ficar, não consegui. Essa viagem me fez ter coragem de admitir que se podia sobreviver como artista. Tinha medo de enfrentar. Vi tanta arte. Em Roma, em Paris. Quando voltei, passei na Escola de Arte Dramática.

OP - Lá foi realmente sua escola?
Nelson - Fui encaminhado. Acabei me formando com notas boas.

OP - Mas o despertar ainda não era como ator...
Nelson - Desde menino, eu escrevo. Meu negócio era esse. Nunca fui empresário. Para fazer cinema no Brasil tem que ter algumas coisas de empresário. Mas eu não tenho. Não sei lidar com dinheiro. Não sei administrar. Para mim, é complicado. Por isso não produzi mais filmes na minha vida. Tenho dois, três ou quatro roteiros que tentei fazer. Mas não tenho capacidade. Voltei a escrever agora mais um roteiro.

OP - Mas você nunca pensou em transformar essas histórias em filmes pelas mãos de outra pessoa?
Nelson - Não. Meu trabalho como ator começou a vingar também. Comecei a sobreviver assim. Continuei escrevendo teatro. Tenho duas peças premiadas. Mas sempre tão à esquerda do sistema, que é complicado botar mercado nisso. No mercado, só fiz sucesso como ator.

OP - Você tem uma trajetória ligada à esquerda. Como foi o trabalho, em 1962, no Movimento de Cultura Popular (MCP), que você participou em Recife?
Nelson - O Movimento era um modelo de instituição educacional de vanguarda. Foi fundado pelo (pedadogo) Paulo Freire. Era uma coisa fantástica. O trabalho era voluntariado de estudantes e artistas. Se o golpe não tivesse prendido todo mundo e acabado com aquilo, hoje o Brasil seria um exemplo educacional planetário. Tenho plena convicção. Porque alfabetizava pelo método Paulo Freire. Fazíamos teatro, uma peça minha, do (Augusto) Boal e de outros autores, sobre resistência e luta armada no campo. Eles produziram. Passei um bom tempo morando em Pernambuco. Foi uma época áurea da minha vida.

OP - Você gostaria de ter continuado?
Nelson - Sem dúvida. Eu iria continuar. Vim pro Rio para fazer um curso de cinema para voltar e fazer cinema. Enquanto isso, o (cineasta) Eduardo Coutinho foi fazer Cabra Marcado para Morrer, cujas filmagens foram interrompidas pelo golpe. Tinha um departamento de teatro, outro de cinema. Isso que inspirou o CPC (Centro Popular de Cultura), da UNE (União Nacional de Estudantes), inclusive a UNE Volante, que era uma caravana de arte, que percorria as capitais todas. Era um país desperto. Exatamente um país como é hoje nas ruas. Greves e reclamação, todo mundo querendo mudar o Brasil, reformas de base, o Jango. Jango foi assassinado. A gente não estava preparado para o golpe. O golpe foi de uma brutalidade…

OP - Como foi a aproximação com o Teatro de Arena?
Nelson - Eu já fazia crítica de teatro na revista (Visão). Como fiquei conhecido no Seminário (de Dramaturgia), estabeleci relações com o elenco, o pessoal que escrevia, e tinha passado na Escola de Arte Dramática com nota boa, o Zé Renato (Pécora, fundador do Teatro de Arena) me chamou para o elenco. Passei a ser empregado, tive que sair da revista. Ótimo. Passei a me ver como artista. Recebia salário mensal. Logo depois, o Zé Renato ganhou uma bolsa de estudos para passar um período fora. O elenco ficou tomando conta do Arena colegiadamente. Foi um período fantástico. A gente revezava na administração. Cada um tinha uma tarefa. O dinheiro era distribuído igualitariamente.

OP - Quem estava lá nessa época? Era fácil a convivência?
Nelson - A primeira geração, que eu chamo: Boal, (Oduvaldo) Vianna (Filho), (Gianfrancesco) Guarnieri, Chico de Assis, Milton Gonçalves e Flávio Migliaccio. Esse era o núcleo central. Teve uma hora que briguei com o Flávio. A gente se pegou. Eu trabalhava na administração e não tinha dinheiro. O Flávio queria comer. Eu disse: “Não dou”. Porque, para comprar um palito de fósforo, tinha que reunir. Comunista é fogo. Fazia reunião para tudo. Passava a vida em reunião. Foi um período fecundo, maravilhoso. 

OP - Você fez peças de Augusto Boal, de Plínio Marcos e do próprio Guarnieri, como Eles não usam black-tie, com a temática social. Como era entendida, nessa época, a ideia da arte como poder de transformação social?
Nelson - É exatamente isso que o Arena traz para o teatro: o compromisso e a função social da arte. A gente queria que o teatro mudasse a consciência das pessoas. Era uma exagero. Mas a gente queria isso. Por isso ia a sindicatos, a diretórios estudantis. A gente observava, nas nossas preocupações de interpretação, o homem da rua, o operário, para se comportar cenicamente como ele. Havia uma busca social de se identificar com as classes excluídas, no sentido de conscientizar. Por isso, depois, foi difícil para mim me adaptar a fazer um teatro chamado burguês ou pequeno burguês, que só divertia. Naquele tempo - e antes do golpe, então - teatro para divertir, para passatempo, eu tinha desprezo; era um sectarismo muito grande. Stalinista até os ossos. Eu não respeitava as pessoas que faziam isso. Eu nem cumprimentava. Era vigente a palavra alienação; os alienados e os comprometidos. Naquele tempo, o preto era preto e o branco era branco. Depois do golpe, ficou meio cinzento.

OP - Depois do golpe, quando esse teatro é rechaçado, para onde você vai caminhando com sua carreira?
Nelson - Eu já não estava no Teatro de Arena. O Boal continuou. Fez o Teatro Coringa. Arena conta Zumbi, Arena conta Castro Alves. Era o início da teorização do teatro do oprimido. Ele começa a mexer na dramaturgia. O Boal fez o que o (Bertolt) Brecht sonhou: saiu do teatro, eliminou a quarta parede. Brecht não teve essa coragem. Eu não fiz parte disso. O Teatro de Arena continuou em São Paulo. Eu fiquei desligado, afastado, em caminho solo, como ator. Já estava no Rio, tentando sobreviver. Fiquei muito perdido, muito tonto. Para me reestruturar, levei anos. Fui fazer análise, me reestruturar pessoalmente. Fiquei sem saber o que fazer na vida. Tinha traçado um caminho que ia para a cadeia. Eu não entendia o mundo como era. Eu era um stalinista convicto. Para mim, havia comunista e o resto. Era difícil a adaptação. O nível de machismo era impressionante. Eu tinha uma namorada que fazia análise e eu disse: “Preciso disso”. Então, fui fazer. Mais tarde, em 1968, aconteceu uma revolução proletária também no Ocidente, a política paz e amor. Se você não consegue fazer a revolução fora, faça dentro de você. Entrei nessa. Fui me reestruturando para me capacitar a viver num novo ambiente.

OP - Mas essa mudança tinha alguma coisa de espiritual?
Nelson - Não. Era psicológica, de saber o que escolher. Depois eu comecei a me conhecer melhor, de saber minhas limitações. Você começa a descobrir mecanismos.

OP - O que você acha que dessa análise você levou para sua vida artística?
Nelson - Voltei a escrever. Escrevia sem parar. Era teatro de terror.

OP - Do que tratava?
Nelson - Era um funcionário que não consegue dizer não. Ele só passa em casa e volta para o trabalho. Tem sete, oito ou dez jornadas. Acaba matando a mulher e enrolando no tapete para receber o chefe. Em 1971, o Brasil era terrível. Com Garrastazu Médici, não havia perspectiva possível. Era trevas. Aos 16 anos, comecei a escrever um romance. Então, escrever é coisa que eu sempre faço. Mas nunca mercantilizei isso. Tenho livro de poema, de prosa. Nunca foi publicado. Com o golpe, parou tudo. Estava perdido mesmo. A análise me levou a escrever. E passei a querer ter família, filhos.

OP - Nessa época em que você estava perdido, como vislumbrava que seria o futuro?
Nelson - Não vislumbrava. É exatamente essa peça, em que ele mata a própria mulher. Tentei satisfazer alguns sonhos pessoais. Encontrei na escrita uma forma de sobreviver espiritualmente. Mas eram perspectivas muito difíceis. Uma dificuldade de me associar também para fazer as coisas.

OP - Você participou de algum movimento comunista para derrubar a Ditadura?
Nelson - Eu tentei entrar para a luta armada. (Carlos) Marighella era meu herói. Cheguei até a treinar. Não cheguei a pegar em armas. Comecei a frequentar, mas depois desisti. Vi que não iria dar certo. Não tinha futuro. Eu conto isso, aliás, na peça (A Vida é Sempre Bela). Quando o embaixador foi sequestrado, a esquerda fez festa. Era uma espécie de sinal de que era possível fazer alguma coisa. Depois disso, eu entrei. Logo se viu que não dava. A gente não tinha estrutura para isso. Aí resolvi ser ator. Aliás, estou escrevendo um argumento com gente que foi para o Araguaia, que fala de hoje e de 40 anos. E com o mesmo parceiro de agora, o Ivan Jaf.

OP - Como foi a transição do teatro para a TV?
Nelson - Nunca pensei na televisão como linguagem. No início, tinha muito medo. Me sentia muito mal e muito nervoso. O primeiro trabalho não consegui terminar de tão nervoso. Fui chamado para fazer um galã até. Ainda fazia parte desse troço aí de estar perdido. Com o tempo, fui perdendo o medo, me agarrando aos personagens. E aí surgiu Lampião, em 1982. O Grisolli já tinha trabalhado no Arena. Por um período, ele foi administrador do Arena. Durante um tempo, a gente tinha uma relação - não era amigo, mas tinha uma relação. E ele me chamou. Com Lampião, perdi o medo.

OP - Hoje você gosta de trabalhar em TV?
Nelson - Eu adoro. Mais um, por favor! Eu estava com saudade de fazer novela. Fazia tempo que não me chamavam. O encanto de fazer televisão é que você não sabe o destino do personagem. Em todos os outros, você sabe. Então é meio desafiador, excitante descobrir qual é o destino.

OP - Você ainda tem algum tipo de ansiedade ao trabalhar em televisão, cinema, teatro? Ou o início desses trabalhos é sereno?
Nelson - Eu nunca tive muito isso. Fora o medo da câmara que era gigantesca naquele tempo, eu só senti nessa ocasião, depois quando passou… Nos exames da Escola, eu era o que menos ficava nervoso.

OP - Você ainda se considera comunista?
Nelson - Eu acredito. O homem só vai ser feliz quando acabar a propriedade. Acho o capitalismo cada vez pior. Ainda mais agora. A gente vive na periferia do capitalismo. A sociedade de massa com consumo dirigido. O sujeito acabou. A gente vive um momento muito difícil, porque até capitalistas ferrenhos estão admitindo que Marx tinha um pouco de razão. A ideologia dominante continua sendo capitalista, mas estão revirando esse cadáver. A gente está num beco, porque essa previsão de que o consumo é indispensável para manter a produção é um beco sem saída. A gente vive uma coisa que tem a ver com o mercado e não com o homem. Cada vez mais pessoas estão se dando conta disso. É um caminho árduo.

OP - Você passou por muitos momentos de mudança ao longo da vida. Mas o que o câncer de próstata que você teve de enfrentar, em 2003, quando foi diagnosticado, significou para você?
Nelson - Primeiro, você entende o que é abismo. Porque você cai nele. Mas, depois, o fato de encontrar Chico, você passa a entender que isso pode melhorar você. E acho que melhorei por causa disso. Perdi muito de uma incrível arrogância. Só aí tive noção da dimensão da minha arrogância intelectual e psicológica. Então comecei a encarar o fim, porque a noção de finitude te humaniza. Acho que fiquei melhor como pessoa por causa do Chico, mas também por causa do câncer. Descobrir o Chico me deu serenidade.
Fonte: O Povo online

Sem comentários:

Enviar um comentário